Eliane Brum, meia dúzia de notas de um encontro para se recordar

Todos os anos o Canal Futura faz um Encontro Nacional de Jornalismo. É um momento bacana, quando reunimos as equipes de jornalistas das universidades parceiras do canal com a equipe interna. Só acontece uma vez ao ano, infelizmente. Mas, nesse dia, está dada a oportunidade de conversar sobre o sentido do que o jornalismo do Futura faz e, principalmente, sobre que rumos esse fazer deve assumir.

No terceiro encontro, realizado em novembro desse ano de 2010, tivemos uma convidada especial: Eliane Brum (abaixo, em foto retirada do site www.revistacriativa.globo.com). A jornalista que já atuou em vários grupos de comunicação e agora experimenta também a direção de documentários, se notabiliza pelo estilo pessoal, ao mesmo tempo profundo, literário, intenso, tornando suas reportagens peças únicas no contexto da comunicação no Brasil.

Eliane veio conversar sobre pauta e construção da narrativa.

Fiquei atendo e anotei uma meia dúzia de coisas boas para compartilhar.

Para ela, fazer a pauta é decidir o que vai ser contado e, principalmente, como vai ser contato. Parece óbvio, mas não é. O jornalista, aqui, aparece como ator histórico, como alguém que define a história quando produz conteúdo. Como repórter que duvida se suas próprias certezas, inventando estratégias para escapar das armadilhas visíveis e invisíveis do mundo ao seu redor. Ser repórter, dessa perspectiva, é viver o exercício cotidiano da dúvida.

Na trajetória pessoal de Eliane Brum, ela optou por ser repórter de “desacontecimentos”. Dedicando-se principalmente ao que não é entendido como notícia. Jornalismo sobre a extraordinária vida comum. É o olhar que constrói o mundo, não o mundo que constróio o olhar. Dentre suas aprendizagens e escolhas pessoais sobre pauta e construção narrativa, estão:

Complicar a pauta. A primeira, a segunda, a terceira idéia, geralmente são ruins. Primeiro há o trabalho de desconstruir a pauta. O caminho mais difícil é, em geral, o melhor. “Reportagem boa é aquela que a gente complica do começo ao fim”, disse. Depois, é preciso praticar a desconstrução com relação a si mesmo, ao seu próprio modo de fazer.

Complicar também a abordagem, o ponto de vista. Descobrir e inventar o fio de história, puxar o fio, enrolar o fio.

Observar antes de interferir. Observar de vários ângulos antes de escolher seu ângulo. Se eu vou apenas ver o que todo mundo vê, é traição com as pessoas que estão vendo ou lendo as notícias, onde nada mais foi acrescentado ao que qualquer um seria capaz de ver ou relatar.

O melhor que pode acontecer é dar tudo errado. O contrário da reportagem é a tese. O repórter deve evitar a tese. O melhor que pode acontecer é dar tudo errado, é quando a história se torna muito mais interessante, porque sai do previsível.

É preciso se perder para se encontrar. Em todas as reportagens Eliane Brum acredita antes perder-se. Depois, quando se encontra é um alívio. Entende as coisas quando está fazendo algo muito prosaico, como lavar a louça.

Na rua é quando o repórter vira seu próprio chefe. Sai para cumprir uma pauta, mas deve ficar atento, pois no caminho pode acontecer alguma outra coisa. Muito mais interessante.

Escutar é mais importante do falar. Bons repórteres são bons escutadores da realidade. Todos querem falar, mas ninguém quer escutar. Surdez pode ter a ver com medo do que se pode ouvir do outro ou de nós mesmos, se pararmos para nos ouvirmos.

Fazer a entrevista na casa. A casa informa muito sobre as pessoas. Sendo a “casa” o lugar existencial fundamental de cada um.

O lugar do repórter é o do estrangeiro. Fugir da falsa sensação de ser um bicho doméstico no território do outro é algo do qual o repórter não pode descuidar jamais. 

É como digo, estão aí uma meia dúzia de notas para se lembrar...

 

Leia Eliane Brum:

Coluna semanal na revista eletrônica Vida Breve

Coluna semanal na revista eletrônica Época