Intervalo

No último dia 10 de Abril fui convidado para provocar. É isso mesmo. A equipe do Instituto Desiderata organizou o excelente Intervalo Mídia-Educação em Debate no charmoso Museu de Arte do Rio (MAR), para o qual foram convidados professores da Educação Básica no Rio de Janeiro e demais pessoas interessadas. Um evento múltiplo. Ao mesmo tempo que inicia um processo de discussões que vai continuar por todo o ano, e pelos ouros anos..., também foi ocasião para o lançamento de duas novas plataformas de conteúdo e dados "sobre" e "para" a educação. A Plataforma Prisma, uma fonte cumulativa de conteúdos para uso em situações de aprendizagem. A Plataforma Latitude, com dados interativos sobre educação no Rio de Janeiro. Trabalho interessante, que vale à pena conhecer e usar. Principalmente usar!
 
Primeiro ouvi o professor Ladislau Dowbor (PUC-SP). Ele defendeu, jovial, que se apropriar de maneira organizada dos nossos próprios destinos é a coisa mais importante que há. O exemplo melhor para ele é o dos suecos, cada sueco que participa de quatro organizações comunitárias, em média. Ou então a pastoral da criança de São Paulo, com muitos voluntários. A síntese disso é a seguinte: as coisas funcionam bem na comunidade que se organiza para fazer acontecer. Não se iluda. O professor Ladislau lembra que organização local também é possível nas cidades. Inclusive nas grandes cidades. O problema pode ser identificado no plano geral, mas a política pública passa pela apreensão do detalhe e da especificidade do nível local. E isso é possível apenas para que está "na ponta".
 
Nosso mundo é interessante. Em nosso tempo, o agora, o conhecimento se tornou o principal fator de produção. Ao ter o conhecimento como matéria prima, a educação está num lugar social e econômico privilegiado. Conhecimento é o produto que, quanto mais consumido, mais aumenta o estoque! (Obrigado, Ladislau, por me fazer aprender isso.) É um benefício e um incremento dos processos colaborativos que estão diretamente relacionados ao fazer da educação.
 
A tecnologia, a portabilidade, a circulação da informação, podem ser facilitadores da articulação, da colaboratividade de atuação em nível local. Mas o conhecimento do território, e o uso dos recursos locais em benefício das próprias comunidades, estão no cerne das discussões. A educação, como manejo do conhecimento local e do conhecimento de outras origens, organizadas e potencializadas para o uso local, é, como diríamos, um "negócio da China".
 
Por enquanto, nessa transição para o digital, vivemos sob regras antigas, analógicas, para normatizar um mundo cada vez mais digital. A dimensão local aparece como espaço privilegiado de articulação e da transformação social.
 
Então chegou minha vez e provocar e eu perguntei ao professor Ladislau:
  1. Na sociedade brasileira, estamos preparados para colocar em foco o coletivo, em lugar do interesse individual?
  2. Num pais cada vez mais centralizado, no que diz respeito às políticas públicas e investimentos de Estado, como fazer a experiência local dialogar com o plano de recursos federal?
  3. Colocar o conhecimento numa centralizado que parece não corresponder ao entendimento do senso comum faz sentido? Como podemos fazer isso prevalecer, e não a visão da educação e da escola como perda de tempo?
  4. Onde podemos encontrar essas experiências da educação como processo colaborativo? É a realidade?
 
Então falou a Mariane Koslinski, pesquisadora em educação e e uma das responsáveis pela Plataforma Latitude. Ora, estando disponíveis um enorme conjunto de dados sobre educação, como esses dados vêm sendo apropriados pelos diferentes sujeitos da comunidade escolar. Principalmente professores e diretores. Ela nos questionou. 
 
A cidade se organiza de modo específico e cada uma dessas diferentes conformações influirá na escola e na educação. Portanto, existe vínculo entre dados da educação e dados sobres cidade e os recursos ali disponíveis. Ao olhar para os dados de educação estamos olhando para a cidade e vice-versa.
 
Num ponto de confluência com professor Ladislau, Mariane trouxe a importância do recorte mínimo dentro do universo de dados. De modo a permitir entender características de cada escola. Características sócio demográficas e culturais, além dos indicadores educacionais. Reaprender a ler os números e a dalogar com eles.
 
Ao mesmo tempo que organizam certos filtros, os dados também podem permitir planejamento local e, também, uma revisão da metodologia de avaliação dos indicadores utilizados na produção dos dados. Um retorno importante para melhorar todo o processo, no conjunto.
 
Outra vez chegou meu momento de perguntar, e eu perguntei:
  1. O que vai ser preciso para que o usuário comum, com pouco conhecimento sobre dados e sua organização, possa se beneficiar desse tipo de informação? Um professor, um pai, um estudante... Como podem usar isso?
  2. Como podemos garantir que os dados não sejam apenas utilizados para confirmar ou fortalecer listagens dos melhores e dos piores estudantes e escolas?. Como transformar dados em motor de transformação ou de promoção social?
  3. A flutuação da população escolar e das decisões de governo são um fato. Como dialogar com esses condicionantes, quando estamos atuando em nível da escola, de cada escola?
  4. Existe um canal de retorno? Através do qual os atores locais possam se posicionar e contribuir para melhorar os dados?
Então falou o Edson Diniz, da equipe do Redes da Maré. Ele recuperou o tema da mídia-educação e da presença das tecnologias em sala de aula, a partir da visão engajada da atuação como professor da Educação Básica. A mídia, ou o que ela propaga, está presente na sala de aula, independentemente da vontade dos atores sociais ali presentes. Esses conteúdos também atravessam as vidas de todas as pessoas, como promotor de socialização. Ao contrário da perspectiva da localidade e do específico, das duas apresentações anteriores, a abordagem do contexto educacional pelo viés da presença social da mídia, na fala do Edson ressurge essa dimensão da totalidade, da "massa" ou da "cultura de massa". Equipamentos popularizados nos dias de hoje, mudam culturalmente os comportamentos e podem ser aliados do processo da aprendizagem. Sendo facilmente apropriados pelas gerações mais jovens.
 
E mais uma vez, provoquei:
  1. Num ambiente de migração digital, de crescente expressão comunicacional - todos para todos - a abordagem que caracterizou um modelo cultural - um para muitos - que começamos a superar, ainda tem espaço?
  2. A presença da mídia na escola, também deve ser incluída em sua dimensão expressiva (apropriação de linguagens, produção, criação, edição, expressão), ou apenas pelo viés crítico na relação de consumo, como foi destacado?
  3. Como incorporar tecnologias no processo de aprendizagem? Seriam apenas as TICs, ou deveríamos pensar novas categorias para abranger tecnologias em uso, mesmo que não sejam as tecnologias de base eletrônica ou de base telemática, que caracterizam as tais TICs? A tecnologia precede o método e o processo construído coletivamente na sala de aula, ou é fruto da escolha posterior e sincronizada com o projeto político pedagógico?
O resumo é que foi uma tarde de muitos aprendizados. Visite as páginas das plataformas recem lançadas e acompanhe a programação anual do Intervalo. Muita coisa interessante está por vir.