Maré de Livros, Bienal do Livro do Rio de Janeiro - 2011

“Maré de Livros” foi o nome escolhido para o espaço infanto-juvenil da Bienal do Livro de 2011.
 

Mais uma vez eu tenho a felicidade de cuidar da Concepção e da Curadoria deste espaço, trabalhando em conjunto com a equipe da Fagga Eventos, co Suzane Queiroz da Pândega e com Nei Carames e os outros criativos programadores da 32Bits, do Rio de Janeiro. Com essa turma, idéias se transformam em realidade!

Trata-se de um grande espaço de visitação com mais de 500 metros quadrados, concebido para acolher a visitação dos jovens-leitores a Bienal. Tradicionalmente o evento recebe milhares de crianças e adolescentes, que circulam pelos pavilhões do Riocentro acompanhados de suas famílias ou de seus professores e desde de 2009, com a “Floresta de Livros”, a Bienal passou a oferecer a esses visitantes mais uma oportunidade de mergulhar no universo dos livros e das narrativas por eles contidas.

A razão principal deste espaço é a de contribuir para a formação de jovens leitores. A proposta conceitual parte do pressuposto que o contato direto e intenso com os livros e as demais formas contemporâneas de apresentação das narrativas, é capaz de despertar nas crianças e nos adolescentes o interesse pela leitura, pelas múltiplas leituras, reforçando a formação de hábitos relativos às competências da leitura e da escrita.

A escolha feita para o espaço infanto-juvenil 2011 propõe ao visitante uma imersão no mar infinito das letras que povoam nossa imaginação, os próprios livros e as narrativas, remetendo-se à diferentes expressões do código escrito e ao exercício de decodificar a grafia, entender e apropriar-se das diferentes possibilidades narrativas, para então, o próprio visitante tornar-se um autor, ou co-autor, durante sua visita a Bienal.

É um espaço plenamente ajustado ao mundo contemporâneo e aos novos costumes sócio-culturais em uso no Brasil. O livro se faz presente como está presente em nossas cidades e escolas. Ao lado dele, outras formas de narrar e receber as narrativas.

O espaço “Maré de Livros” foi organizado em três seções, cada uma delas opta por explorar uma maneira específica de ter acesso ao livro e às narrativas, no conjunto se complementam como uma experiência de imersão.

Os visitantes acessam o espaço por duas entradas frontais e são conduzidos por “fios de história” em diferentes registros textuais; fios que vão se entrelaçando e conduzindo as crianças e adolescentes por um caminho de livros que podem ser consultados e lidos no local.

Pensando nas diferentes faixas etárias que acessam o espaço durante o evento, e também nas diferentes possibilidades de grafar as narrativas, serão explorados caminhos apenas gráficos e outros, de maior complexidade textual e narrativa.

Prosa, poesia e imagem se sucedem, conduzindo o visitante até o próximo ambiente da “Maré de Livros”.

A seguir os visitantes mergulham no aquário central. Esse segundo dispositivo explora a representação de imagens gráficas em pixel art, criando quatro grandes painéis interativos que simulam o ambiente subaquático dessa maré de letras. São painéis com interatividade múltipla, ao serem tocados em determinados pontos, surpreendem o visitante com recursos de interatividade relacionados à leitura e às narrativas.

Depois os visitantes interagem com as mesas icônicas, no final do trajeto. Também preparadas para múltipla utilização, essas mesas são uma invenção bem humorada que propõe a crianças e adolescentes transformar emoticons em texto regular. Desse modo, brincando e se divertindo, propõe-se uma retomada do texto em grafia convencional, fazendo o inverso do caminho que os usuários

de gadjets eletrônicos geralmente fazem ao criar mensagens de comunicação instantânea. Neste último espaço, individual ou coletivamente, os visitantes podem criar suas próprias narrativas breves, utilizando para isso um teclado de emoticons.

Mesa Icônica de Emoticons
É uma mesa interativa composta de um teclado com emoticons e uma tela. Ao serem pressionados manualmente, os e
moticonsgeram palavras na tela, traduzindo os símbolos icônicos em linguagem escrita convencional.
Cada emoticon pode gerar na tela até três diferentes palavras ou expressões. Para cada emoticon escolhido, de

ntre os mais utilizados no Brasil, foram listados substantivos, verbos e/ou ações e, por fim, expressões coloquiais de linguagem.
A combinação destres três gêneros de vocábulos podem formar narrativas com sentido, ao surgirem na tela do equ
ipamento.

Deste modo, se alguém teclar seguidamente: \o/  :o  T_T, ele formará a frase: “comemorar sem aviso afogando de tanto 

chorar”. Ou então, ao teclar três vezes apenas um dos emoticons, por exemplo  :) , o resultado na tela seria: “alegrar a alegria igual bobo alegre”. Há possibilidades muito divertidas de construção de texto, como: :P  :$ :( , que se transforma em  “mostrar a língua é um mico precisando de colinho”. Outro exemplo é  :)  o_O  o/\o , que resulta  “alegrar uma confusão toca aqui mano”.

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Os repórteres costumam perguntar: “de onde veio a ideia?”, “por quê você fez essa ‘maré de livros’?”. Eu sempre respondo que é porque ler é divertido e se há alguma coisa que eu gostaria que as pessoas levassem dessa visita é o gosto pela leitura, pelas narrativas.

Que alguém se lembrasse no futuro: “um dia fui a um evento de livros e foi divertido”. Pronto, missão cumprida.

É claro que não vai dar para desenvolver o gosto pela leitura em uma única visita a Bienal do Livro. Mas, dá para provocar um primeiro impacto emocional e deixar o jovem leitor ir para asa com um sentimento bom, um gostinho de “quero mais”.

Esta XV Bienal do livro tem algo diferente: parace que finalmente o livro de papel e tinta começa a ser entendido como um objeto de mídia, como muitos outros objetos de mídia existentes, inclusive aqueles que são utilizados para ler. Estamos atrasados no movimento mundial de tirar o livro de papel e tinta do sacrário. Hoje estão disponíveis muitas formas de ler, e muita coisa para ser lida. O que se deveria buscar é uma alfabetização múltipla, para todas as escritas, e assim ampliarmos um pouco a visão que temos sobre esse universo da difusão das narrativas.

Uma discussão interessante, da qual participei na última sexta-feira, na Bienal, foi a que aconteceu dentro da Assembléia dos associados da AEILIJ, Associação dos Escritores e Ilustradores de Literatura Infanto Juvenil. Um dos temas era: quem vamos admitir como novo associado, já que no passado o critério era ter obra publicada em papel e tinta e, agora, cada vez mais, aparecem pedidos de autores de e-books e outros objetos de mídia que tem a ver com a narrativa literária. Ainda bem que a Associação ampliou o entendimento e o dissociou do objeto de mídia de papel e tinta.

um grupo de pré-adolescentes em flagrante apropriação do espaço

Na Maré de livros, um dos primeiros experimentos é atravessar um fio de história inicial. Um labirinto curto, que faz o corpo tomar consciência da leitura. Essa primeira interface lúdica explora o “corpo que lê” (Na seqüência de fotos a seguir, é possível acompanhar alguns corpos que leem em plena ação no espaço inicial da maré). Neste primeiro segmento da instalação, a escrita nas paredes é uma referência à própria escrita da/nas cidades. Será que seria possível, sem a intensa cultura de telas de hoje eme dia, atravessarmos a Rua Jardim Botânico no Rio de Janeiro e identificarmos todos aqueles grafites? Creio que não. De algum modo, todos esses suportes expressivos – a parede, o papel, as telas eletrônicas, etc.- estabelecem correspondências de leitura e produção de sentido. Taí o espaço onde devemos investir.

Por esse caminho, decifrando textos que às vezes podem estar ao avesso, uma boa idéia e fazer umas paradas para observar livros e, se estiver com um pouco mais de tempo, até mesmo lê-los.

estantes de livros pelo labirinto inicial. você para, pega e lê.

Ao superar o labirinto, é hora de experimentar como seria viver dentro de um aquário. As grandes paredes iluminadas podem revelar segredos. Abra uma, abra duas, abra várias mensagens e descubra qual história elas contam.

Para terminar, as mesas emoticom. Um invento realmente divertido, onde um teclado de emoticons gera textos em linguagem convencional. Às vezes aleatórios, mas à medida que o visitante vai ganhando mais controle sobre o equipamento, os textos crescem em sentido e prazer.