O jornalismo acabou como profissão?

 

“O jornalismo acabou como profissão, mas não como ofício.”

A frase é forte, o autor também. Saiu da boca de Paulo Markun em mesa do Ciclo Bravo! de Jornalismo, uma das atividades paralelas da programação do Forum das Letras 2011, em Ouro Preto, Minas Gerais.

Na mesa, sobre Jornalismo Literário, onde Markun esteve acompanhado do jornalista Fred Melo Paiva, falou-se sobre as mudanças recentes nas redações de jornalismo, em jornais e revistas, realçando a redução de investimentos na produção de perfis pessoais e matérias de maior qualidade narrativa.

Os dois jornalistas, de gerações distintas, frequentaram redações, como a da Revista Playboy, onde se podia investir até dois meses na construção de um perfil biográfico, fato impensável nos dias de hoje.

Fred Melo Paiva contou que, ao chegar à redação da revista, nos anos 1990, havia todo um protocolo de tempo e cuidado para as famosas entrevistas ali publicadas. Os repórteres deveriam produzir pelo menos oito horas de gravação em, no mínimo, três diferentes encontros com os entrevistados, para, então, fazer a edição final do material produzido.

Considerando as transformações no ambiente das redações de agora, Fred Melo Paiva confessou que, na Época Negócios, revista onde atua, se leva uma semana produzindo um perfil, fica pessoalmente incomodado com a “demora”.

Comparando essa realidade de tempo e recursos disponíveis, com o desejo, sempre presente entre jornalistas, de realizar projetos com mais tempo e dinheiro para pesquisa e apuração, redação e edição, é que Paulo Markun manifestou essa hipótese do enfraquecimento do jornalismo como profissão.

Apesar de ter iniciado sua carreira em 1971, como “foca” do jornalO Estado de São Paulo, duas décadas antes do colega de mesa e profissão, é interessante ver como Paulo Markun mantém vigor e autonomia em sua trajetória pessoal, com uma produção diversificada em temas e linguagens midiáticas.

O ex-presidente da Fundação Padre Anchieta tem escritório instalado num coletivo de criadores na cidade de São Paulo, onde vive cercado de gente jovem e novas idéias, como a Pública, agência de notícias e parceira brasileira do Wikileaks.

Em dois ou três copos de chop que tomamos juntos, pude ouví-lo discorrer com alegria juvenil sobre novos equipamentos de vídeo digital e a série de TV que prepara, como autor e diretor.

O experimentado jornalista explicou à platéia que, para contruir um bom perfil, é bom chegar “desarmado” ao personagem. Principalmente quando quem está investigando tem diferenças ideológicas e pontos de vista que se opõem aos do personagem em foco.

Para Markun, os perfis não são retratos fiéis de seus retratados. Editar uma história é dar uma versão pessoal e, muitas vezes, subjetiva sobre uma outra pessoa. “Jamais se vai contar ’a história’ de alguém. Um perfil é um esboço, uma caricatura sobre alguém”, nos explica Markun.

Para quem se interessa, o site de Paulo Markun está recheado de textos que enchem olhos e a alma dos navegantes.

Vejam abaixo a parte inicial do perfil de Victor Civita, escrito para a revista Imprensa, com texto completo disponível no site do jornalista.

“O porteiro demora a descobrir meu nome na lista de convidados. O elevador pára no segundo andar e descarrega um carrinho repleto de revistas. Lá em cima, a recepcionista gasta preciosos segundos até localizar Dona Rosely pelo telefone interno. Estou 45 minutos atrasado para o encontro com Victor Civita, o pontual e poderoso dono da Abril – e a sorte não está do meu lado. A loira e sorridente Rosely, uma espécie de ajudante-de-ordens de VC, me leva pelo corredor do sexto andar, com suas paredes cheias de obras de arte e, na ante-sala, quase consegue derrubar minhas últimas esperanças:

“Agora não adianta mais” – diz ela com um sorriso enigmático sobre o qual ergo minha fé. “Quarenta e cinco minutos! Ele não vai atender…”

Dito isso, desaparece por uma porta lateral. Um capitão da industria, um empresário todo-poderoso que comanda 11.500 funcionários e quinze empresas não devia mesmo receber um repórter tão impontual. Em 45 minutos, ou menos, ele é capaz de tomar decisões que envolvem milhões de dólares, centenas de empregos, milhares de exemplares de uma nova publicação. Ainda afio mentalmente meus contra-argumentos, na esperança de poder esgrimi-los. E me recordo do primeiro encontro com Victor Civita, em circunstâncias muito diferentes, quatro anos antes.

Foi num estúdio fotográfico da Abril, onde diretores e funcionários da empresa se reuniram para a foto oficial do lançamento da Abril Vídeo, o embrião da sonhada – e até hoje distante TV Abril. Quem estava atrasado era ele.

Chegou falando com todos e pedindo desculpas e posou com o entusiasmo de um colegial. Foi conferir a foto no arquivo: há sorrisos entusiasmado e fisionomias tensas, mas a expressão de Victor Civita era de quem sabe que a parada está ganha. Não estava.

Não tive chance de testar se um atraso pode justificar outro. Dona Rosely abre a porta e me coloca diante de VC.

Do lado de lá de uma grande mesa de jacarandá, Victor Civita se ergue – um hábito que faz questão de preservar “um pouco de gentileza, um pouco de educação, um pouco de exercício”.

O sorriso de 22 dentes – é possível contá-los, em qualquer foto – se abre prontamente, tão veloz quanto o cumprimento italiano, que já provocou algumas confusões:

- “Ciao, caro… Eu te mato!”

Para Fred Melo Paiva, talvez subestimando o ofício, “Jornalismo é uma coisa simples. Você está ali para tirar o máximo da pessoa que está entrevistando. (…) É preciso ganhar aquele cara”.

Esta afirmação, confesso, trouxe-me algum desconforto, talvez por não ter percebido claramente o que seria inegociável, na opinião de Melo Paiva, quando se refere à relação entrevistado/entrevistador.

Fiquei mais tranqüilo quando pude perguntar a ele o quê não estaria disposto a fazer para “ganhar o cara”. Fred respondeu recuperando os limites éticos que devem ser observados por qualquer bom jornalista.

Para Melo Paiva, é difícil poder afirmar, ao se finalizar um perfil, que se conhece a pessoa retratada. Principalmente nos perfis da imprensa semanal, sem tempo para elaboração e uma pesquisa mais profunda.

É comum que jornalistas, como ele, completem “lacunas de informação com a interpretação pessoal, elocubração, sobre as pessoas e os entrevistados”.

Apesar de paracer um pouco entranho afirmar que se preenchem lacunas com inferências pessoais sobre os entrevistados, esta é uma marca bastante presente em produções do chamado New Journalism norteamericano, que marcou revistas como a The New Yorker e autores como Gay Talese, que foi várias vezes citado na conversa.

Fred Melo Porto trouxe para a conversa um certo sofrimento com o ofício, relatando casos onde recebeu críticas em conseqüência dos perfis que escreveu. Ou então casos nos quais se arrependeu de afirmações ou observações sobre os entrevistados.

Lembrou-se, por exemplo, do perfil que fez de Niemeyer para o jornal Estado de São Paulo, onde mostra o famoso arquiteto como um velhinho mal humorado, repetindo respostas prontas, orelhudo e um pouco débil.

Uma simples busca no Google é suficiente para perceber como este perfil negativo de Niemeyer gerou reações da sociedade-brasileira-corporativa. Associações e entidades escrevaram cartas e desagravos ao personagem centenário, que é uma unanimidade na opinião pública nacional.

Estar contra a corrente traz consequências. Fred Melo Paiva sabe disto, diz que se arrependeu de certas frases e palavras que utilizou; que percebeu, posteriormente, que o perfil do Niemeyer foi escrito “com raiva” do personagem. Tendo, ele próprio feito um “mea culpa” redentor.

Com mais e menos dramas, o jornalismo pode ter acabado como profissão, mas certamente não acabou como ofício, no que estou em completo acordo com Paulo Markun. Afinal, a vida segue.