Qual vai ser a próxima killer app?

 

Seria fazer mais um up to date na discussão, mudar a pergunta para “qual o próximo killer app”. A próximo aplicativo matador, em bom português. Apesar do bom português, as pessoas gostam de usar a expressão em inglês app, e a pronúncia popular para “app”, é “épi”, do jeitinho mais aberto como os brasileiros falam inglês.

Traduzindo melhor a questão: todos os players no mercado audiovisual, que envolve radiodifusoras (emissoras de rádio e TV), desenvolvedores de software e fabricantes de televisores, dentre outros, querem saber qual vai ser o próximo aplicativo que vai cair no gosto popular dos consumidores emergentes e ávidos de novidades online para download.

Sim, estou caprichando nos jargões em inglês deste universo complexo que reúne a tradicional indústria da comunicação de massas e os novos negócios baseados em interatividade e conectividade. Até porque, num cenário de convergência tecnológica, foram lançados os televisores conectáveis à internet.

Os fabricantes gostam de dizer “televisores conectados”, mas muitos deles não chegam a ser ligados à internet, apesar de poderem ser. Recentemente este desconforto foi reduzido com a mudança do nome para smart tv. Para se ter uma ideia, em 2011, um a cada cinco televisores vendidos no Brasil são conectáveis à internet, mas, por outro lado, mais da metade dos televisores em uso no país são ainda televisores de tubo!

Os números do negócio são assombrosos. “Até 2013 teremos 30 milhões de conexões à banda larga no Brasil”, afirma Rafael Cintra, da Sansung. Neste contexto, uma smart tv proporciona uma nova experiência de consumo que envolve assistir, interagir, escolher, procurar, compartilhar conteúdos. Bem diferente da recepção em linha da televisão aberta e por assinatura, com a qual o público está acostumado.

Além do aumento da renda média do brasileiro, para Rafael Cintra, o que muda também é a “chegada da geração Y no mercado de consumo”, já que este segmento etário é o atual responsável pela maior parte das decisões de compra no mercado brasileiro atual.

A discussão e oposição de alguns pontos de vista entre estes diferentes setores vem se intensificando, à medida que cresce o poder de participação no mercado brasileiro da tal “nova classe C”. Na verdade, eu já nem sei mais como denominar esse mundaréu de gente que o Governo Lula ajudou a colocar dentro das lojas de departamentos no Brasil.

Os fabricantes de televisores, como a Sansung e a LG, descobriram que já não basta entregar um bom aparelho, precisam embarcar conteúdo nos equipamentos, para vencer a concorrência. Esse conteúdo deverá chegar aos consumidores em televisores conectáveis e pela mediação eletrônica de aplicativos, evitando que o usuário tenha de usar o controle remoto para navegar por menus complicados e por browsers na tela de um televisor. A loja eletrônica da LG no Brasil já dispõe de mais de 300 aplicativos para baixar. Vários outros fabricantes, como a Sony, conseguiram formar redes de usuários e produtos interligados, fazendo emergir o conceito de social tv, ou seja, redes sociais articuladas por intermédio de aplicativos de televisão.

De fato, os próprios fabricantes reconhecem: utilizar o controle remoto para navegar por menus e por navegadores de internet é uma experiência frustrante. Há pessoas que se arrependeram de desembolsar três, ou mais, mil reais, por uma smart TV, logo na primeira vez que tentam utilizar o controle remoto para dar conta da navegação e das tomadas de decisão em menus na tela do televisor.

Por causa disto a Sansung desenvolveu um conceito de all share sansung com todos seus outros equipamentos, como os tablets e telefones da família Galaxy, de modo que o usuário possa utilizar um destes como um super-controle remoto com tecnologia wifi e, assim, com teclados disponíveis à mão, navegar mais facilmente.

Este segundo gadjet na relação de consumo de mídia em frente a tela do televisor é o que se chama “segunda tela”. Isto pode dar certo, porque as pesquisas mais recentes indicam que os usuários de mídia estão se acostumando a assistir a TV enquanto fazem outras interações com diferentes plataformas de distribuição.

Os dados para o Brasil são interessantes. Salustiano Fagundes, sócio da HXD, desenvolvedora de aplicativos, afirma que entre os adultos que usam internet, em terras tupiniquins, 76% navegam na internet enquanto assistem à televisão, 54% publicam comentários em redes sociais e 67% trocam mensagens instantâneas.

Os brasileiros adoram estar em contato e compartilhar nas redes sociais (virtuais e presenciais) aquilo que viram na novela ou no telejornal. Isto é fato. Basta lembrar o que aconteceu com o Orkut. Brasileiros e indianos tomaram conta desta rede social, de tal forma, que seus criadores a retiraram o ar no lado de cima do equador…

Então, a tal “segunda tela”, como uma solução de navegação pelo conteúdos e menus das smart TVs, e como uma alternativa para distribuição de conteúdo ampliado, disponibilizado de forma síncrona com a programação de TV, é o sonho das emissoras (ou radiodifusoras).

Pelo que declara Carlos Fini, da TV Globo, nenhum criador, ou grande produtor de conteúdo, quer ver seus produtos alterados pela superposição de gráficos, menus ou ícones de aplicativos. Isto envolve negociação com os autores (roteiristas, criadores, diretores, atores…) e também uma certa crença sobre o modo como o público prefere assistir aos produtos.

Mas, para André Barbosa, da Casa Civil, traduzindo a interpretação que o governo faz destas pendengas, trata-se principalmente de mercado publicitário. Ou seja, interatividade e conectividade sobreposta provida pelo fabricante do televisor e sobreposta ao conteúdo de terceiros, significa novos espaços de comercialização publicitária que acabam sendo negociados sem a participação de parte dos produtores de conteúdo. Pelo menos daqueles que produzem conteúdo para televisão broadcast em linha.

Parece que neste ponto as emissoras de televisão têm motivo para se posicionar como elas costumam fazer. É inaceitável que uma nova camada de exploração de receita publicitária seja estabelecida sobre a camada de conteúdo tradicional das emissoras de televisão, sem que haja participação dos produtores de conteúdo no faturamento.

Para as emissoras, é ao produtor de conteúdo que compete o desenvolvimento de aplicativos, também tem se esforçado para isto. Para este segmento a questão é um pouco mais complicada, pois em paralelo vem a obrigatoriedade de implantação do serviço de televisão digital, inclusive com recursos de interatividade, conforme previsto pela legislação brasileira sobre o assunto.

Televisão digital no Brasil nos leva ao assunto Ginga e à confusão de plataformas de programação às quais os desenvolvedores são obrigados a se adaptar para poder criar produtos.

Sim, ao se imaginar um aplicativo, ele será desenvolvido em iOS ou Android, em HTML5 ou Flash? O Flash, aliás, acabou de ser descontinuado pela sua fabricante, a Adobe. A dúvida pela escolha da plataforma sempre existe, o que leva muitos desenvolvedores a disponibilizarem o mesmo produto em várias plataformas.

Os desenvolvedores ficam sem opção de escolha, quando cada fabricante define uma diferente plataforma para seus próprios produtos. Esta é a realidade atual e, apesar da demanda pela unificação das linguagens de programação, pouca coisa tem acontecido neste sentido.

no Brasil, uma das soluções poderia ser a adoção do Ginga, como uma solução unificada de programação de aplicativos para televisores conectáveis e televisão digital (onde seu uso já está normalizado). As emissoras de televisão e o governo brasileiro ficariam bem contentes com esta escolha, os desenvolvedores também, pela facilidade de desenvolver aplicativos que poderiam ser utilizados em televisores de diferentes marcas.

Enquanto isto não acontece – e pode levar tempo – todo mundo quer mesmo é saber qual vai ser a próxima killer application.