Los hermanos periodistas: tão próximos e tão distantes...

 

É domingo. É de manhã. Acordei mais cedo que o previsto, para um sujeito de classe média que vive num bairro boêmio do Rio de Janeiro. Tateando o início do dia no silêncio do antes-que-a-vizinhança-acorde, decido enfrentar o imenso volume de páginas do diário que me esperava do lado de fora da porta de entrada.

As roupas giram suaves na máquina de lavar como um mantra hipnótico, mas a caneca de café puro me encoraja e eu atravesso página a página as notas das várias seções noticiosas. Vejo tudo. Leio tudo. Num escrutínio de entomologista forense, esforço-me por classificar, distribuir e ordenar mentalmente a narrativa fragmentária do diário matinal.

Ao final de quase duas horas de esforço, estou aqui me perguntado se levarei algo desta leitura matinal. Confesso: levo pouco.

cartaz do encontro no Rio de Janeiro

Esta semana estou com a cabeça cheia de perguntas sobre jornalismo. Tantas como jamais fui capaz de formular antes. Durante os últimos seis dias estive envolvido com o Seminario y Taller de Investigción Periodística “Seguridad y vida cotidiana en las grandes ciudades de América Latina“. Ali pude conviver com vários jornalistas vindos de toda a América Latina e com os mestres Mónica González e Cristian Alarcón, responsáveis pela condução das atividades de formação durante o evento.

Sendo um dos organizadores e dando suporte ao evento aqui no Brasil, tive o prazer de receber a todos na sede do Canal Futura, no Rio de Janeiro.

Também pude ouvir, observar, aprender, pensar e repensar minhas próprias práticas, tomadas de decisão e escolhas, como um dos responsáveis pelo departamento de jornalismo de um canal de televisão.

Talvez por estar impregnado com tudo o que apreendi me sinta tão crítico com o leio esta manhã: notas rápidas e um tanto quanto superficiais, redigidas no ritmo alucinante das rotativas (sim, ainda existem), antes que sejam completamente digeridos os elementos necessários para que se possa produzir uma narrativa consistente.

Não quero criar mal entendidos, por isso esclareço que não sou contra a informação factual. Nada contra a informação do momento, dada ao vivo, no calor dos acontecimentos.

O que incomoda são as tentativas, cada vez mais freqüentes, de interpretar a razão dos acontecimentos, explicando-os de imediato, antes que existam elementos para tal. Também me assusta o esquecimento quase instantâneo, que sucede à explicação imediata, tão logo surge um novo fato.

Será que vivemos um jornalismo de produção industrial e dos esquecimentos? Que fabrica novos fatos-produtos e os explora, para depois descontinuar sua produção, tão logo um novo acontecimento seja “lançado”?

Estes pontos não foram discutidos durante a semana que passou. Apenas chego a eles após um mergulho profundo no processo do jornalismo, este sim, o centro das atividades desenvolvidas durante o seminário e oficina da semana passada.

notas pessoais em guardanapo de papel

No final desta manhã inusitada de domingo, tento fazer um balanço, muito rápido, do que descobri.  Sem a intenção de produzir síntese, mas com o compromisso de seguir com a busca de qualidade no que fazemos.

Alguns meses atrás, no escritório de Jaime Abello Banfi da Fundación Nuevo Periodismo Ibero Americano, quando ouvi dele e de Ricardo Corredor Cure a proposta para fazermos este evento aqui no Rio de Janeiro, não estava certo do que iria acontecer.

Aquele era meu último dia numa inesquecível passagem por Cartagena de Índias, na Colômbia, e quando, depois, tomei um táxi para o aeroporto, segui pensando se faria algum sentido trazer para o Brasil um evento de formação para jornalistas latinoamericanos, já que somos um país de costas para o continente da nossa localização geográfica, cujos povos desconhecemos com a mesma pretensão com que nos miramos em espelhos da Europa e da América do Norte.

Nesta mesma semana, ao mediar uma mesa redonda no Rio Content Market, outro evento internacional na cidade, vivi uma situação que bem traduz estas distâncias e proximidades com nossos hermanos. Estava ali Vitoria Romano, do infantil Canal Paka Paka, da Argentina. Sem dúvida, um dos melhores projetos de conteúdo infantil disponíveis na televisão latinoamericana. Durante a mesa, ela se apresentou em espanhol, leu um discurso em inglês e esforçou-se por responder perguntas em português. A melhor parte disto foi ver um argentino falando português. Mas esta dificuldade de escolha do idioma demonstra o quão próximos e o quão distantes estamos dos nossos países vizinhos.

Hoje, percebo o valor da iniciativa. Só por termos realizado o evento no Brasil, dentro das nossas instalações, algumas coisas já mudaram. Houve o interesse da imprensa, a possibilidade de compartilhar as discussões com profissionais de vários veículos brasileiros e o surgimento de novas relações entre jornalistas que não se conheciam. O principal ganho são as redes que se formam a partir destes encontros de pessoas. As trocas que se iniciam. A possibilidade de fazeres comuns, hoje ampliada pelas facilidades da comunicação à distância. Enfim, mais combustível no motor da transformação.

E que venha o próximo!

Links para visitar e conhecer:

FNPI Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano

CIPER Centro de Investigación Periodística

El Faro, revista salvadorenha

Cosecha Roja, site jornalístico

Si me querés, quereme transa, Cristian Alarcón

Paka Paka, canal infantil argentino